Dias desses, li a Sociedade do Cansaço do autor Byung-Chul Han, livro bastante curto e de uma potência inigualável... até a décima página, mas isso vou deixar pro final — aproveitar o que tem de bom e tecer minhas frustrações depois.
Pois bem. Han faz uma distinção entre o século XX e o XXI, onde o século anterior, que ele denomina "imunológico", seria uma metáfora simples para um inimigo visível e declarado — o nós contra eles. Já o século XXI seria o das neuroses, onde o inimigo seríamos nós mesmos, por certa definição.
Apesar de não definir exatamente, já que ele dá várias definições sobre o que é neurose e como se define de forma mais precisa, partindo de fragmentos e algumas interpretações minhas, ele diagnostica que o cansaço de uma sociedade vem da própria neurose e de um excesso de felicidade.
A neurose é uma ausência de processamento — experiências e sensações acumuladas ao longo do tempo, sem tempo para uma introspecção ou até mesmo de um tempo ocioso de tudo para não se acumular mais. A causa dela seria o próprio estado atual, com uma sociedade focada em produtividade, onde coisas como multitasking são valorizadas — num espaço de tempo fazer duas coisas ao mesmo tempo, produzir mais em menos tempo e assim por diante. No caso, isso não seria uma evolução, mas uma involução, já que os animais na natureza operam assim, pois precisam estar sempre atentos para sobreviver.
O hiperfoco e a hiperatividade, diz Han, não seriam necessariamente benéficos, afinal, foco constante e atividade não significam trabalho necessariamente produtivo, já que se pode ter isso em situações que não envolvam trabalho, como um jogo de computador.
Adicionando ao diagnóstico, o excesso de felicidade também seria uma causa — interpretando que a felicidade é um sentimento de externalização, tudo vai pra fora e não é absorvido para a consciência e digerido. Já a tristeza é um sentimento de interiorização, que pode ser suave ou truculenta, para alguma reflexão.
Sendo assim, o ponto é que, como é o século das neuroses, a lógica de produtividade e o constante trabalho em diferentes formas dela impossibilita uma "luta" ou pensamento de liberdade mais plena, já que não existe um opressor externo, somente o interno. Assim sendo, o sujeito é o opressor e oprimido ao mesmo tempo.
É interessante o que Han diz nessa obra, obviamente não concordo com tudo, mais um aspecto diferente, mas como eu disse no começo: vai até a décima página (quase literal). Ele tem muita potência no começo, mas vai se esvaindo à medida que vai colocando referências, citações e jargões em demasia, que acho desnecessários — é como se estivesse cumprindo uma cota. Procurando sobre, é muito comentado que a obra dele tende a ser circular, que lido um você lê todos os outros, e que também sofrem das mesmas coisas citadas acima. Para comprovar isso eu teria que ler, mas com a experiência com esse, fico com o pé atrás. Outra coisa mencionada é o caráter comercial, já que quase todo ano ele lança uma obra nova. Seus críticos mais antigos comentam que serviriam mais como ensaios do que como vários livros. Claro que seria injusto eu dizer o lado negativo, sendo que suas obras anteriores são bastante elogiadas, sendo as críticas mais direcionadas às mais recentes.
Enfim, particularmente me senti bastante frustrado, já que minhas expectativas estavam altas. Talvez valha a leitura — algum tipo de aprendizagem é tirado dele, seja direta ou indiretamente.